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Cap 92 - Vovô!

Esperando em um frio e antipático corredor por um longo tempo, Diego só faz suspirar de ansiedade. Quando observa o médico finalmente se aproximar com uma papelada presa à prancheta e um sorriso no rosto, fica aliviado.
-Olá. Eu tenho boas notícias. Seu pai poderá voltar para casa em alguns dias.
-Sério? Mas isso é ótimo! –Ele fica eufórico de alegria.
-Sim, mas terá de ficar de repouso por algum tempo. Aliás, ele está acordado agora e pediu para falar com você, pode vir?

-Claro.
Diego acompanha o médico até a porta do quarto onde está Leonardo. Quando entra, vê seu pai como uma única mancha de um quadro branco. Cortinas, lençóis, paredes, piso... Tudo tão claro que os olhos chegam a doer.
-Oi filho. –Ele cumprimenta enquanto Diego se senta à sua frente.
-Pai, como o senhor está?
-Bem. –Ele o observa. –É que...
-Sim.
-Preciso te pedir uma coisa muito importante.
-Pode pedir.
Ele fica atento e seu pai começa a falar. Quando termina, Diego está em choque.
Seu telefone vibra, tirando-o do transe.
-É a Roberta. –Informa ao pai.
-Atende.
Diego sai do quarto e atende no corredor.
-Oi, meu amor. –Ele diz com voz cansada.
-Oi, como você está? E o seu pai?
-Melhor. Me disseram que poderá voltar pra casa em alguns dias.
-Mas isso é ótimo!
-É, mas... –Ele fica tenso ao se lembrar do pedido do pai. Não sabe como contar a ela o que terá de fazer.
-O que você tem?
-Roberta, eu não vou poder voltar ainda.
O coração dela dispara.
-Como assim você não volta?
-Meu pai me pediu para ir às reuniões que ele tinha marcado para representa-lo. Se não for, ele vai se complicar. São apenas algumas semanas.
-Algumas semanas!? –Roberta se altera. –E eu vou ficar sozinha por todo esse tempo com a Nina?
-Não! –Ele fica confuso.
-Claro que não! Eu vou ficar com a sua família, e com o meu pai, e com o doido do Caíque! –Ela fica muito brava.
-Roberta, me ouve!
-O que?
-Vem pra cá com a Nina. Vocês podem ficar comigo!
-Você se esqueceu de que as aulas vão começar? E eu tenho estágio!
-Mas eu não vejo outra solução. Você vai ter que escolher!
-Assim como você já escolheu o seu pai, certo?
-Não é assim!
-Claro que não! É bem pior! Você nem falou comigo antes de tomar essa decisão.
-Estou falando agora!
-Quer saber, eu não quero conversar com você! Tenho que cuidar da minha filha já que o pai dela esqueceu que tem uma! –E desliga o telefone.
Está zangada, não entende como ele pode ficar, sabendo o que está acontecendo. Como ele pode escolher o pai em vez delas. Não acredita no que ele está fazendo. Diego por outro lado, se sente em um beco sem saída.

***

Ainda tensa e recostada na parede de azulejos pensando no que Diego havia dito, ela ouve um chamado desesperado. É Danilo.
-Roberta! Roberta!
Ela sai correndo e o vê perto na porta.
-Cadê a Nina?
-A Patrícia levou! Disse que eu sou muito pequeno pra tomar conta dela.
Roberta se apressa. Tem fogo saindo pela boca. Desce as escadas e chega à sala com o menino em sua cola.
Encontra Sílvia conversando com Patrícia no sofá da sala. Nina está no tapete, agarrada a um trenzinho vermelho. Ela não brinca, fica apenas de olhos arregalados, como se tivesse sido repreendida.
Roberta retira a menina do chão e se dirige a Patrícia.
-Você se esqueceu do que eu te avisei?
-Perdão? –A garota se faz se sonsa. –Ah, fala da menina? Bem, eu... Eu só achei que não era seguro deixa-la lá sozinha com um menino de 4 anos.
-Ela tem razão, Roberta. –Sílvia concorda. –Danilo é atencioso, mas é muito pequeno.
-Eu estava ligando para o Diego a menos de três metros deles!
-Ah, e o Diego tem boas notícias? –Patrícia pergunta e Roberta lança a ela um olhar carregado de raiva.
Sílvia percebe a tensão entre as duas e resolve levar Roberta para o jardim com Nina.
-Venha, vamos conversar lá fora, você precisa de ar fresco.

***

No jardim de grama aparada e pequenas flores brancas, ela se sente melhor. Começa a caminhar ao lado de Sílvia, levando Nina pela mão, treinando o seu andar. O vento suave e a lentidão conseguem proporcionar algum sossego.
-Eu vou falar com ela, Roberta. –Sílvia promete. –Mas por enquanto não quero que se preocupe. Eu estou sempre aqui e temos outros empregados. Ninguém vai deixar nada de mal acontecer a sua filha.
-Não confio naquela garota. Você sabe disso. A Nina tem medo dela, fica estranha quando a vê.
-Eu entendo, mas não se preocupe. Vamos aproveitar o dia. Logo vai ficar tudo bem.
Roberta não sabe se tudo vai realmente ficar bem, mas aceita o que a madrasta de Diego diz, já que não há muito o que possa fazer. Só não consegue esquecer o olhar de satisfação daquela babá quando a viu sair de casa.

***

Durante três dias, ela e Patrícia não se encontram. Caíque não dá sinais de vida e nem mesmo Leonel cumpre a palavra de vir falar com ela. Roberta estranha o silêncio, mas fica a espera de uma bomba a qualquer instante. Diego volta a ligar várias vezes para conversarem, mas continuam se desentendendo. Ela está quase convencida que ir para onde ele está e ser reprovada é a única solução, mas se segura na esperança de que ele volte e largue os negócios do pai.
Na sexta feira seguinte, Leonardo volta para casa. O médico recomendou que tirasse umas férias em vez de apenas alguns dias, mas ele está chateado de ter de parar de trabalhar. Quando fica sabendo das hóspedes, até aceita, mas não fica muito feliz. Roberta nunca foi uma pessoa com quem gostasse de conviver e não acreditava que seria diferente com a filha dela.
-Seja bonzinho com as duas, Leo. –Sílvia diz enquanto o obriga a sentar na poltrona da sala.
-Vou ser desde que elas não me incomodem, desde que fiquem longe de mim e me deixem em paz.
-Papai! –Os meninos descem as escadas juntamente com Márcia e o abraçam. Enquanto conversam entre si, Sílvia mergulha em pensamentos. Algo deverá mudar.

***

No fim daquela tarde, ele se ajeita outra vez na poltrona, toma uma xícara de café e abre o jornal. A sala está quieta e deserta como poucas vezes esteve depois do nascimento dos gêmeos. Consegue passar alguns minutos imerso na leitura até que percebe que não está só. Ao olhar por cima do jornal, vê Nina no tapete, engatinhando atrás de um urso quase totalmente destruído.
-Sílvia? –Ele chama e olha para os lados. –A menina está aqui! Sílvia?
Ninguém responde. Leonardo olha para a bebê com estranhamento e depois volta a ler, tentando ignorá-la. Mas não consegue por muito tempo e torna a abaixar o jornal para olhar para ela. Agora a menina já está de pé e mais próxima dele. Quando o vê, começa a rir. Acha que ele está brincando de esconder o rosto atrás do jornal e fica a espera do “Achou!”.
Leonardo bloqueia a visão com o jornal outra vez e foca na leitura. Há novos acréscimos para as multas de trânsito, quase três vezes o valor atual. “Nossa” ele pensa “a coisa está a cada dia pior”.
-Vovô!
Leonardo tem um sobressalto e abaixa o jornal de uma vez. Tinha ouvido mesmo aquilo? Nina está vindo em sua direção e logo se apoia em seu joelho.
-O que disse? –Ele sorri, um pouco assustado.
-Vovô! –Nina ergue os braços para ele. Parece gostar de Leonardo de graça e, diferente da maioria dos adultos, não tem nenhum medo de seus modos carrancudos.
Sem saber o que fazer, ele deixa o jornal de lado e a pega no colo.
-Vovô! –Nina segura seu queixo com as duas mãos e começa a balbuciar palavras sem sentido algum. O homem fica com cara de idiota, sorrindo para ela, pedindo para que repita outra e outra vez mais até ela se cansar.
Quando Roberta está vindo da cozinha, Sílvia a agarra pelo braço.
-Psiu!
-O que foi? –Ela para e fica de queixo caído quando vê para o que Sílvia está apontando.
Leonardo faz gracinhas para a neta. Está sorrindo e alegre com ela no colo. Leonardo sorrindo e alegre? Roberta quase não pisca de tanta surpresa.
-Você armou isso, né? –Ela pergunta a Sílvia, sorrindo.
-Só achei que ele precisava de uma mãozinha pra se apaixonar por ela. Não foi muito difícil. Só disse a ela que ele era o vovô e a coloquei para engatinhar até a sala. O crédito é dela!

Roberta ri enquanto espia, mas decide não incomodar. Não sabe que, naquele instante, o coração de Leonardo se aquece e o amor que está se expandindo em seu peito por aquela criança, se transformará aos poucos em remorso, e em seguida, em uma vontade imensa de protegê-la.

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