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Cap 69 (faculdade) - Cinco minutinhos antes da guerra


 O casal não consegue responder nada de imediato. Ficam um tempo olhando para ele como se esperassem que dissessem “Ah, seus bobos, caíram nessa, hein?” –e começasse a rir... Mas não foi bem assim.
-Ele não tá falando sério, né Roberta?
 A garota fica sem resposta.
-Roberta.


-Não se preocupe. –Ela acorda. –Esse homem não tem como me obrigar a nada, já sou maior de idade.
-Mas ainda é minha filha.
-Grande coisa. –Ela cruza os braços. –Isso não te dá direito sobre a minha vida.
-Eu não consigo acreditar que você veio morar nesse lugarzinho, pra cursar uma faculdade que não vai te dar futuro algum ou pior, talvez te dê um futuro como o da sua mãe.
-Com o qual ela é muito feliz? O seu medo é esse? Que eu seja feliz?
-Feliz! É isso que você chama de feliz? Se juntar com seu namoradinho, jogar a educação que paguei para você no lixo para se dedicar à música e por cima disso tudo ainda ter um filho?
-Sim, eu chamo isso de ser feliz sim! Eu escolhi viver com o Diego, eu escolhi a música e sim, eu tive uma filha! E eu tenho muito orgulho dela! Se eu pudesse voltar atrás eu a teria de novo!
-Roberta... –Diego fala um pouco de lado. –Não é melhor contar a ele toda a história de como você ficou grávida?...
-Não.
-É melhor preparar suas coisas, você vai viajar comigo. –Leonel olha algo no celular, como se eles não importassem. –Em Roma eu te coloco na linha.
-Tá pensando que eu sou como você? –Roberta se altera. –Que deixa uma filha pequena do outro lado do oceano e se esquece dela?
-Eu sempre te dei tudo e não vou deixar nada faltar a essa criança.
-Claro. Nada! Porque ter um pai e uma mãe não é importante quando se pode comprar uma loja de brinquedos, não é mesmo?
-Você sabe que teve uma vida muito boa. Ela também terá, é só vir comigo.
-Eu não vou deixar a minha filha pra ir com você.
-Roberta, você sabe que eu posso tirar você daqui quando eu quiser, não sabe? Vocês nem são casados, não são nada.
-Não seja por isso! –Diego se adianta. –A gente se casa.
-Vocês não tem juízo pra viverem juntos, será que não entendem que isso já foi muito longe? Ainda dá tempo de vocês consertarem a vida de vocês.
-Não tem nada pra consertar! –Roberta tenta enfrenta-lo, mesmo com receios.
-Vocês precisam entender que...
-O senhor é que precisa entender. –Diego vai a frente, peitando Leonel. –E de uma vez por todas, que essa... Essa é a MINHA casa, que aquela garota ali é a MINHA mulher e que a criança que está lá em cima agora é a MINHA filha! Aqui, nessa casa, o senhor não tem nada que levar. Nada aqui é seu, ouviu bem? Nada! Nós somos uma família e ninguém vai nos separar. Então com todo o respeito. –E aponta para a porta. –Faça o favor de se retirar, porque não temos mais nada para conversar.
 Sem esperar essa reação, Leonel olha para Roberta por cima dos ombros de Diego e não diz mais nada.  Bufando feito um touro bravo, ele apenas balança a cabeça se despedindo.
-Vocês decidiram o caminho mais difícil. Passar bem.
A porta abre e fecha com força. Um barulho alto de despedida deixa medo e alívio ao mesmo tempo. Quando Diego olha para trás, Roberta está com o rosto abatido, mas ao vê-lo, ela sorri tristemente.
-Você foi demais... –Ela vai ao seu encontro e o abraça. –Obrigada.
-Eu disse que não ia deixar ele te fazer mal.
-Eu sei...
 Diego dá vários beijos em seu pescoço, apertando-a nos braços. Ela também se comprime junto dele de um jeito que pede segurança, que pede abrigo. Está tensa, está tremendo.
-Ei... Que isso? –Ele a solta e acaricia o rosto dela com as mãos. –Não precisa ficar assim. Tá tudo bem...
-Eu... –Ela tem um rosto choroso. –Eu não sei, não consigo evitar. Eu sempre tive muito medo do meu pai. Essa foi a única vez que enfrentei ele. Nunca tive forças pra isso.
-É a nossa pequenina que te deu forças.
-É... Mas se ele me levar eu morro, Diego.
-Ele não vai te levar! –Diego segura o rosto dela e olha bem dentro de seus olhos. –Fica tranquila, isso não é novela mexicana... –Ele tenta um sorriso. –Ninguém vai tirar você de perto da Nina... Tá? E nem de mim! Porque eu vou até o fim do mundo pra te encontrar!
Ela fica com um sorriso encantado e respira fundo, apertando os lábios. Ainda tem o coração agitado e volta a abraça-lo, sem cerimônia. Afunda o rosto em seu ombro e agarra com força sua jaqueta. O cheiro de Diego traz um conforto imenso, assim como sua voz e seu calor. Os braços que ele pressiona em suas costas são como escudos de proteção e seu peito é um muro em que sente estar separada de todos os males do mundo.
Roberta prende o choro na garganta, como é de costume, e vai vestindo pouco a pouco a armadura. Quer ser forte, ainda mais do que sempre foi antes. Não pode, não deve ter medo. Ninguém vence batalhas chorando, vence lutando, levantando espadas, gritando até rasgar a garganta. Vítimas não vencem batalhas, assistem-nas das macas dos hospitais, nos cemitérios, nos céus ou na terra. Não, não é do tipo vítima, é do tipo guerreira...
“-Ergue a cabeça Roberta Messi. –Ela pensa. –Enxuga as lágrimas e encara a vida como sempre encarou.”
 Mas ao sentir os dedos de Diego em seus cabelos e um beijo dele sobre sua testa, lhe vem um arrepio interior...
“-Ok... Mais cinco minutinhos antes da guerra...”


***
  

Leonel está em seu carro, dirigindo enquanto faz uma ligação. Para evitar problemas, deixa em viva voz.
-E aí, Leonel? Como foi?
-Mal. –Ele vira a esquina rumo a casa de Eva que fica um pouco distante. –O seu filho me encarou.
-Ah, eu já imaginava, o meu filho não é um homem que deixa...
-Olha, Leonardo, não é hora de ficar se gabando do filho “macho” que você tem. Eu quero que esse nosso plano vá adiante, ouviu bem?
-Mas vai, não se preocupe. Essas crianças precisam da nossa ajuda. Faça a sua parte que eu faço a minha. Tenho certeza que eles logo desistirão dessa loucura e vão seguir o rumo certo.
-É o que eu espero mesmo. Quando eu chegar no hotel te retorno.
-Ok. Até então.
 E desliga o telefone.
 Do outro lado da linha, Leonardo se assusta com a chegada de Sílvia em seu escritório.
-Com quem você estava falando? –Ela fica curiosa.
-Era o... O Leonel, o pai da Roberta.
-Ele voltou? –Sílvia se espanta. –Mas o que ele queria com você?
-Falar apenas... Nada demais... –Ele está nervoso. –Afinal de contas, a filha dele e o meu filho estão juntos e tem uma criança agora... Aliás, ele nem sabia da Nina.
-Sério? Mas... Como soube? –Ela cruza os braços. 
-Bom... –Leonardo se enrola. –Eu... Eu não faço ideia...
-É estranho, porque pelo que eu saiba a Roberta nunca iria avisá-lo...
-Papai! –Um dos gêmeos chega interrompendo.
-Oi filho! –Leonardo sente um alívio com a chegada do menino. –Vem aqui, vem!
 E pegando o menino no colo, ele começa a ouvir as grandes histórias que ele tinha pra contar sobre como havia ganhado do irmão jogando bola, brincando de pegar e tantas outras coisas mais.
-Bruno, cadê o Danilo? –Sílvia interrompe.
-Não sei...
-Ah, então vamos procura-lo juntos. –Leonardo se levanta, feliz por conseguir uma fuga ainda melhor.
Sílvia permanece pensativa, mas logo se distrai. Com duas crianças bagunceiras em casa, não há muito tempo para meditar e criar hipóteses mirabolantes sobre a vida alheia, então, o melhor que faz é procurar seu menino fujão junto com os outros.


***



 E debaixo de um céu escuro e de poucas estrelas, uma casinha de dois andares, de algumas janelas de madeira envidraçadas, um gramado e uma varandinha, guarda em seu interior três pessoas risonhas. Uma delas, sentada em uma ponta do sofá, ri um riso gostoso, tem um sorriso bonito, escondido entre cachos compridos, veste uma roupa leve e branca e segura as mãozinhas de uma garotinha muito esperta, com um macacão amarelinho e bochechas rosadas. Ela também não para de rir um só segundo. É tão contagiante, que do outro lado do sofá, um carismático bobo também se empolga, puxa a garotinha para o colo e a enche de mordidas gostosas. As horas vão passando naquele sofá e quantas coisas ele não saberia contar. Se cada toque que recebesse fosse uma alegria que pudesse pegar, seria o maior reservatório de felicidade do mundo.
Quando, no entanto, no cansaço, a garotinha dorme no meio deles, aquela do sorriso bonito e aquele que é um carismático bobo, se admiram no silêncio da mobília. Ele diz algo a ela que a faz rir e fazer língua para ele, mas fica com uma vontade de se aproximar, então eles vão. Vão aproximando os rostos por cima de uma coisinha pequenina e dão um beijo macio que se demora um pouco mais no amor que os puxa... É pelo encosto do sofá que os dedos se procuram e se entrelaçam. Hm... Eu tenho você... A sensação vem e pronto. A noite não é mais escura e agora dorme feliz.

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