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Cap 63 (faculdade) - Como convencer Diego


 Noites são belas por serem misteriosas, trazem na escuridão querida e perfeita os dois lados da moeda, a parte da vida e da morte, a intensão escondida nos cantos das sombras que só existem quando as trevas se misturam à luz.

 Os amigos brincam com Nina e jogam papo fora enquanto a chuva faz festa do outro lado da janela. Jogar cartas, dominó, damas, xadrez...  É quando se esgotam os jogos e tudo começa a ficar chato de tanto se repetir, que Tomás tem uma ideia que causa estranheza em Alice.


-Então vamos mesmo competir para sermos padrinhos?
-Isso aí! –Tomás já vai se sentando no tapete com a menina no colo. –Primeiro as madrinhas.
-A gente?
-É Carlinha, vai ser fácil.
-Isso não vai dar certo, Tomás.
-Claro que vai, Alice! Você e a Carla sentam do outro lado do tapete com um brinquedo que acham que a Nina vai gostar. Pra quem ela engatinhar é dado um ponto. No final o casal que tiver mais pontos vencem!
-Que bobeira... –Pedro desdenha.
-Você diz isso porque sabe que a Nina prefere a mim!
-Hm!! Então tá! Vamos ver isso seu metido!
 Eis o que o tédio faz com as pessoas...
 Um patinho na mão de Carla, uma boneca na mão de Alice.
-Se ela é como a Roberta, você não tem chance com essa Barbie!
-Acredite. –Alice ergue o queixo. –Nenhuma menina resiste a uma Barbie!
 E quando Tomás a deixa no tapete e todos os olhares se voltam para ela, esperando que engatinhe, Nina simplesmente para. Fica quieta alguns segundos até que esfrega os olhos e começa a chorar.
-E... Acho que ela não gostou dos brinquedos. –Pedro observa.
-Ah, eu conheço esse choro. –Dani chega. –Precisa trocar! Dá ela aqui!
-Trocar? Tomás pensa. –Espere um pouco, Dani, não leva ela não. –E desvia o olhar para Alice e Carla. –E aí meninas? Vamos tornar isso uma competição de verdade?
Eles se olham e dizem em coro:
-NÃO MESMO!

***

 A noite passa bem divertida. Nina acaba ficando com Dani até dormir e os amigos arranjaram alguns filmes e fizeram muita pipoca para passar o tempo.
-Está meio tarde, não? –Franco aparece na sala quando eles estão rindo e falando alto.
-Tá nos mandando embora? –Carla se ofende.
-Ah pai, por favor, tá chovendo tanto!
 Todos estão amontoados no sofá e agora em vez de olharem para a televisão, olham para o homem carrancudo de braços cruzados.
-Eu sei Alice. E não estou mandando ninguém embora! Estou falando da Roberta e do Diego ainda não terem voltado. Daqui a pouco a menina acorda procurando por eles.
-Devem estar quase chegando. –Alice olha no celular. –A Roberta me ligou agora pouco, tinham acabado de sair da casa do pai do Diego.
Eva desce as escadas correndo, interrompendo-os.
-Ai meu Deeeeus!
-O que foi?
-Aaaaaai Franco!
-A coisa é séria mesmo. –Alice cochicha com Carla. –Pra ela chamar meu pai de Franco e não de “bebê” só sendo séria!
A mulher põe a mão na testa e se senta, parecendo que se não fizesse, cairia.
-Fala de uma vez! A Roberta ligou? Aconteceu alguma coisa?
-Não. Não é nada disso.
-Então o que foi?
-Eu recebi um telefonema.
-De quem?
-Do Leonel...
-O pai da Roberta? –Franco estranha. –Mas o que ele disse?
-Ele tá uma verdadeira arara! –A cantora leva a mão à boca.
-Mas por quê?
-Ora, por que! Por causa da Nina!
-E o que tem ela, Eva? –Franco fica confuso. –Você fala tudo picado!
-Ele não sabia dela, Franco! Nem fazia ideia da existência dessa menina!
-Não? –Todos se assustam.
-Não, a Roberta não fez questão alguma. –Eva relembra. –Agora ele tá vindo pra cá! Ele vem pro Brasil e eu juro que nunca na minha ouvi a voz dele tão irritada.
-Mas... –Alice põe o “tico e teco” para funcionar. –Eu não entendi.
-O que?
-Eva... –A menina franze a testa. –Como foi que ele descobriu se faz uns cinco anos que não vem ao Brasil?

***

 Ninguém sabia como. De um jeito ou de outro algumas informações atravessaram o oceano, mas esse agora não era o maior problema de Roberta e Diego, nem seria se soubessem dele.
 É um motoqueiro que passa e que faz Diego se descontrolar ao volante. Ele gira de um lado e outro e não consegue se equilibrar em meio à chuva no asfalto escorregadio. Ao ver o tronco da árvore como um rumo certo ele vira instantaneamente quase indo parar na contra mão, mas é levado outra vez à estrada, continuando a correr. A adrenalina está em um nível impressionante.
-Para logo esse carro! –Roberta reage feroz como uma leoa.
Diego para em um instante, no reflexo da ordem dela. Assim que consegue frear, escondido no acostamento, perto de alguns arbustos, Roberta abre a porta do carro e sai feito um raio. Ele mal tem tempo de ver a cena, de tão rápida que é.
-Roberta! –Também abre a porta indo atrás dela.
 Assim que sai, sente o peso da água da chuva bater sobre suas costas. Um frio cortante e intenso em seu corpo quente. Correu-lhe um arrepio enquanto corria atrás dela. O que aquela garota tinha na cabeça? Claro, era a Roberta, era a louca, a selvagem que ele conhecia bem. Às vezes se esquecia deste pequeno detalhe e só vinha a se lembrar nos momentos em que ela fazia algo como sair de um carro no meio do asfalto em plena tempestade noturna.
-Ei! –Ele finalmente a alcança e a agarra pelo braço. –Tá ficando maluca?
-Eu sempre fui!
-Tá querendo ficar doente?
-Doente? –Roberta tenta se soltar. –Isso é o de menos! Quase morremos agora pouco por culpa sua!
-Minha?
-Que eu saiba, não era eu que estava dirigindo! –Ela se desprende e avança, deixando-o para trás. -Eu preciso voltar pra casa de qualquer jeito! A Nina não pode ficar sozinha!
-Mas ela não tá sozinha! -Diego novamente a segura. -Tá com nossos amigos e com a SUA mãe.
-Não me lembra. Pensar que ela está sozinha é menos preocupante. Eu não vou ficar aqui esperando a sorte enquanto...
-Ah, quer saber de uma coisa! –Ele a agarra e joga em cima do ombro.
-Ei! Me solta! Tá ficando doido?
-É acho que é contagiante! –Diego caminha com ela se debatendo.
-Me larga!
A chuva os deixa completamente ensopados e quando ele abre a porta e faz Roberta entrar, os dois parecem ter pulado dentro de uma piscina de roupa e tudo.
-Agora a gente vai pra casa e sem briga! –Ele tenta ligar o carro enquanto Roberta fica emburrada ao seu lado. –Ô-ou... –Ele sente problema.
-O que foi agora?
-Não quer pegar.
-Como não quer pegar? –Ela se agita.
-Não quer ué! Parou!
Eles nem sessam a briga por um problema maior.
-Se ao menos você não tivesse parado no meio do nada!
-Não estamos no meio do nada, eu já passei por aqui antes.
Roberta deita a cabeça e o olha pronta para estrangulá-lo. Não era hora de dizer que era o “sabe-tudo” porque era óbvio que ele nunca havia passado por ali.
-Mas que droga! –Ele bate no volante, como se fosse adiantar.
-Eu vou ligar pra casa.
-Pra que?
-Você não esqueceu que deixamos um pacotinho de gente lá não?
-Eu já disse que ela tá bem! Se não já tinham ligado.
-Essa é a pior noite da minha vida... –Ela fala consigo mesma.
 Após as ligações, Roberta fica mais tranquila, mas com as roupas molhadas no corpo e cabelo escorrendo pelas costas, começa a tremer compulsivamente.
-Tira essa roupa. -Diego propõe.
-Só porque você quer! 
-Tem um cobertor ali! Se enrola nele! Quem você acha que vai te ver aqui?
Difícil não ceder quando o corpo está praticamente congelando. Ela retira parte da roupa e se enrola no cobertor enquanto Diego continua tentando fazer o carro andar.
-Eu vou descer pra empurrar.
-Não vai não! –Ela o segura pelo braço antes que saia. –Olha esses raios!
 A chuva havia aumentado e os trovões estavam ainda mais altos. O barulho era ensurdecedor. Como os homens são teimosos, ele poderia morrer eletrocutado.
-Não vai acontecer nada!
-Você não vai! –Roberta o segura com as duas mãos. Está com raiva, está com medo, está com vontade de bater nele por ser tão idiota.
-É claro que vou!
-Mas não vai mesmo!
 Todo mundo sabe que quando está chovendo, principalmente tendo relâmpagos e você está na estrada, deve ficar dentro do automóvel. Agora ele quer ir lá fora, nessa tempestade. Não! O coração dela vem à goela.
-Eu não vou deixar!
-Esquece Roberta! –Ele é firme. –Nada que fizer pode me impedir de sair desse carro!
-Nada?
-Nada!
-Tem certeza?
-Tenho.
E nisso então, Roberta pensa na única coisa que sempre convenceu Diego em inúmeras situações.
-Quero ver se não te impeço!
E puxando-o pela gola da camisa, ela alastra os lábios quentes nos dele, dando-lhe um susto. O sangue se agita no mesmo instante em que ela suga sua boca fria com gosto de chuva. Laçado pela língua dela, ele vai se desnorteando e não consegue se soltar. O calor é envolvente, é delicioso, bravo e gostoso demais para simplesmente se negar a ele.

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