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Cap 59 (faculdade) - Libido poético

Nem todo mundo sabe o que vai fazer da vida, mas alguns mesmo dizendo saber não conseguem seguir o rumo que traçam. A vida não é certa, ela não é uma ideia que se cumpre. A vida está mais para uma onda que se domina, um império que se ataca ou um buraco em que se cai. Ela é aquela bolinha de papel que você amassa e tenta acertar na lixeira de longe. Você tem chances de ir bem em todas as vezes, mas em muitas delas a bolinha cai fora e você precisa se levantar para buscar ou então simplesmente pode desistir dela.

Pedro está levando Alice de volta para seu apartamento. Ainda é cedo, mas ela que se arrumar (de novo) e descansar (de novo) antes de voltarem a sair.
-Tinha que ser Shopping? –Pedro está entediado.
-Ah, amor... –Ela se debruça em seu braço. –Lá é limpinho, eu não suo, não tem insetos...
-Mas eu preferia, sei lá, algo mais empolgante...
-Você disse que a gente iria onde eu quisesse, então nem vem reclamar!
-Ok! Você tá certa! –Ele ergue as mãos, rendido.
O elevador está vazio e eles conversam enquanto sobem. Depois de um instante de silêncio, Pedro resolve perguntar.
-Alguma coisa errada? Tá brava comigo?
-Não.
-Então?
-Tava pensando... Não é estranho como as coisas pegaram um rumo diferente do normal, ou do que a gente considerava normal de acontecer no nosso futuro?
-Como assim? –Pedro franze o cenho.
-Veja a Roberta. –Alice observa. –Ela tem um bebê. A Roberta! A Roberta louca, de caveiras e rock N roll!
-Mas ela não planejou ter.
-Por isso mesmo! Aconteceu exatamente com ela, que não se via nessa posição nunca! Sempre dizia que não queria se casar, que não iria ter filhos e que namorar era o suficiente. Mas agora está ela lá em uma fase família toda feliz enquanto que eu...
-Você o que? –Pedro se assusta. –Não está feliz?
-Pedro... –Ela busca palavras. –Não era mais natural que nós dois estivéssemos casados?... Tivéssemos tido uma filhinha como a Nina? –A garota dobra a cabeça sonhando. -Ai seria tão lindo! Imagina só amor!
-Alice...
-Oi... –Os olhos dela soltam purpurina.
-Você tá doida?
-Doida? (a purpurina se queimou) –Ela põe as mãos na cintura . –Tá me chamando de doida porque eu sonho formar uma família com você?
-Não é isso, linda! Você sabe que eu adoraria formar uma família com você, mas não agora.
-A verdade... –O elevador abre e ela sai na frente, irritada.  -... É que as coisas nunca acontecem pra quem as deseja e merece!

***

No mesmo tempo em que um casal se desentende de um lado, outro se entende, e muito bem, de outro. Nada de medos, nada de esconderijos ou correria. Está tudo bem como sempre deveria ter estado.
Roberta está de olhos fechados.
Diego também.
As mãos dela estão debaixo da blusa dele.
As mãos dele estão sobre as coxas dela.
O rosto dela está sobre os ombros dele a lhe morder a orelha.
O rosto dele desceu bagunçando o decote dela com beijos demorados.
Ela não consegue pará-lo e nem quer de verdade que pare.
Ele sabe que não devia incitá-la, mas nem acredita que não deva de verdade.
E lá vão eles sem cessar no gosto de boca macia, de perfume suave, de cabelo lavado. No cheiro de pele de homem se misturando a de mulher, buscando se juntar. Instantes de namoro no meio da estrada, no meio do nada, prontos a serem flagrados a se sugar na indigna mania das pessoas quererem prazer a toda hora, a cada momento em que não podem, mas seu interior pede, sem mais, sem menos, sem poder entender. Só querem, irracionalmente querem.
Ah, uns dedos bobos fazendo o estômago se contrair, as ideias fugirem e o corpo saltar. Ah, aquele jeito dengoso de estremecer as pernas, arrepiar o braço, esfriar a espinha, comprimir o ar. Ah, o ventre sentindo calafrios, a dicção fugida e o tontear mau amigo. Tudo no corpo é um segredo, é libido poético de vida contada em tabus pelos homens maquinados.
Dez. Quinze minutos talvez estivessem ali sem diminuir nem pensar. Do lado de fora o tempo está bom, fresco e agradável. Do lado de dentro a temperatura só sobe e fica cada vez mais difícil de respirar. É nesse instante, no momento menos propício que o berreiro começa.
-Ah não, Nina... –Diego reclama, se afastando de Roberta.
-Eu sabia que isso ia acontecer.
Roberta vai logo abrindo a porta do carro rindo.
-Aonde você vai?
-Vou ver o que ela tem, ué.
Diego olha para trás.
-Tudo bem meu anjinho. Papai não ia estragar nada não.
-Estragar? –Roberta a coloca no ombro e olha para Diego.
-Ela me viu abrindo sua blusa, deve ter ficado com ciúme de me ver mexendo no território dela.
-Ah, cala a boca Diego!
Ambos riem.
-Mas o que ela tem afinal?
-Nada... Parece q tá tudo certo... –Roberta vê que a menina se acalma rapidamente.
-Não disse que era ciúme...
-Para de bobagem. Ela não é de chorar a toa. –Uma onda de preocupação surgindo. –Será que ela pode...
-Não. –Diego é rápido. –Ela é forte e o pediatra disse que ela está indo bem. Você se lembra do que nos disse na última consulta, não é?
-Lembro. Estamos cuidando bem dela.
-Tão bem que ela até já pode nos interromper.
-Ela sempre pode tá? –Roberta a olha e beija sua bochecha.
-Hm... Mas eu ainda driblo ela e te pego pra mim.
-Quero ver quando ela estiver grande. Não vamos poder protagonizar essas cenas de hoje com ela por perto não.
-Porque não?
-Ué, porque ela vai estar entendendo tudo.
-E daí? –Diego age naturalmente. –Vai ser bom que ela perceba que tem pais que se amam muito, muito, muito!
-Mas o que acompanha o amor no nosso caso é impróprio para menores de oitenta anos. Não quero uma filha traumatizada!
-Ela não vai se traumatizar, deixa de ser boba.
-Jura? E isso que tava quase rolando aqui?
-Carinho! –Ele brinca. –Carinho inocente.
-Tá... Sua boca tava mesmo de uma inocência... Suas mãos então nem se fala. Vão te canonizar Diego.
-Mereço mesmo sabia? Porque ser seu namorado não é fácil não...
-Por quê não?
-Se soubesse as vontades que tenho quando te olho...
-Ah, seus três desejos me mostraram. Aliás, com o terceiro você vai ter que usar um pouco de sensatez, porque agora temos um ser inocente com a gente.
-Não se preocupe com o terceiro desejo. –Ele sorri misterioso. –Eu é que agora vou te conceder todos os desejos do mundo.
-Agora eu gostei. O primeiro é que você pise logo nesse acelerador e leve a gente pra casa.
-Não tem outro jeito mesmo, né? -Ele faz beice.
-Não mesmo. Já tá enrolando demais.
-Eu tentei! –Diego desiste e dá a partida.
Roberta se volta para Nina.
 -É meu amor, acho que você é a única sensata por aqui...

Roberta fica no banco de trás brincando com a filha durante o caminho para casa. As mãozinhas de Nina já seguram firme e ela já tem tanto peso quanto o necessário para sua idade. O olhar já está muito esperto, as bochechas rosadas e os cabelinhos, ainda ralos, estão ficando a cada dia mais loirinhos, como os da mãe.
O riso da pequenina a faz rir feito boba e Diego fica admirado.
“Meu bebê lindo!”, “Minha lindinha”... Roberta deixa escapar palavras tão doces quanto qualquer outra pessoa soltaria com um filho, mas que nela soa extremamente diferente por seu jeito às vezes tão duro de ser. Ninguém pode pensar que com Nina e Diego ela é tão diferente do que é com o resto do mundo. É como se seu interior fosse todo de algodão e o exterior todo de aço. Para o mundo ela é a casca, para eles, ela é o ninho.
“É mesmo uma boa mãe”, pensa ele enquanto, pelo retrovisor, a vê abocanhar o braço roliço de Nina que gargalha com a brincadeira.
 “Uma mulher completa”- Pensa. “Ninguém jamais terá o privilégio de vê-la como eu.”
Risos, abraços apertados, mordidas gostosas, beijos e mais beijos babados... Os carinhos são tantos, o mimo, a proteção. Parece que a vida deles resolveu ancorar na doçura. Parece que o mundo que gira e nos tonteia a cada manhã resolveu sessar para uma nova família. “Ah, deixe-os descansar”, deve ter pensado. Para que continuar a testá-los com tanto sofrimento? Talvez fosse hora de deixa-los com a alma mais leve, com a vida mais branda e o sono tranquilo.
Talvez...

Chegando em casa, um pouco antes do anoitecer, eles entram alegres pelo portão, sem imaginar que alguém os espreita em um carro preto, estacionado em frente. A pessoa tinha olhos tristes e sombrios, diferentes do que era o seu natural, como eles mesmos poderiam saber se o tivessem visto. 

Comentários

  1. Ferro de vez !!!
    ALINE ROSA poste mais e mate essa minha curiosidade pra ontem Hum'
    preciso preciso preciso de mais
    e esse final como que que eu durma com um final de capitulo tão misterioso ?

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  2. Ai meu Deus!A cada dia que passa fica mais perfeito! Que fofura o Diego admirando a Robs e a Nina <3 posta mais, eu preciso!

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  3. KKK AMEI "-Ela me viu abrindo sua blusa, deve ter ficado com ciúme de me ver mexendo no território dela." KKK QUASE CHOREI DE TANTO RIR...
    VC JÁ SABE QUE AMO SUA WEB NÉH?
    TO MUITO CURIOSA PRA SABER QUEM É QUE TA NO CARRO...

    ResponderExcluir
  4. -Não se preocupe com o terceiro desejo. –Ele sorri misterioso. –Eu é que agora vou te conceder todos os desejos do mundo. Amei ,e que venham muitos desejos...

    Continua...

    (Amanda)

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  5. N aguento mais tantos misterios posta + + + + pf pf pf pf pf pf pf pf (sabrina)

    ResponderExcluir
  6. amando a web demais, super linda a família Messi Msldonado, a Nina é linda demais...
    quem é essa pessoa de olhos tristes???
    posta mais pf

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  7. Line capitulo perfeito!!!
    (Bjusss Julia)

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