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Cap 49 (faculdade) Para toda a vida...

Temos espalhadas por todo nosso corpo pequenas armadilhas de emoção. Os ouvidos, assim como os olhos e a pele captam carinho, força, perdão, raiva, desprezo e amor. Todos os sentimentos são captados por nosso cérebro, por nossos órgãos, por aquilo que é sensível e misterioso nos seres humanos. Somos divinos ou animais? Simples seres sem importância ou somos uma espécie que desde o primeiro vestígio de vida começa a sentir? Afinal como dizer quando começamos a sentir? Quando começamos a perceber as coisas? É preciso ser grande para entender que alguém nos quer como mais ninguém no mundo poderia querer? Ou a vida que não expressar não é vida?...
***


O dia logo iria amanhecer e Diego não havia nem sequer cochilado. Muitos pensamentos, muitos medos e incertezas. Sentia remorso por pensar que talvez o futuro mais provável pudesse ser o melhor. Em uma parte a médica estava certa, eram muito jovens e talvez não soubessem o que fazer, mas por outro, sentia algo incrível quando pensava que havia um novo ser que era uma mistura dele e de quem mais quer bem na vida. Não conseguia imaginar nada mais incrível.
 Está sentado na cama com Roberta dormindo em seu ombro quando ao olhar para a mesinha do lado da cama, vê alguns panfletos e resolve ler. Quem sabe pudessem trazer um pouco de sono. Depois de algumas olhadas ele se depara com um em especial. O assunto que naquele momento mais lhe despertava curiosidade. Abre e passa os olhos minuciosamente nas palavras e imagens, deixando a madrugada passar calada.
Não demora muitos minutos até Roberta despertar e não senti-lo ao seu lado. Encolhe-se de frio e mal estar antes de abrir os olhos e ver que ainda está escuro lá fora. Seu sono estava leve e preocupado e era de se esperar que logo acordasse. Sente a testa um pouco suada, um suor frio, um desconforto corporal.
-Diego? O que está fazendo? –Ela o vê sentado no final da cama de costas.
Ele olha para ela e sorri, volta para o folheto que tem em mãos e respira fundo.
-Na sétima semana o coração já bate mais forte. –Diego começa a ler para ela. – Com pouco mais de 1 centímetro de comprimento, o bebê já formou braços, pernas, intestino, pâncreas e apêndice...
Roberta sorri tristemente e sente um nó na garganta. Diego continua a ler.
-Ele se mexe o tempo todo, mesmo que seja pequeno demais para ser notado. Os hemisférios cerebrais ainda se desenvolvem. Os olhos estão ganhando forma e os ouvidos nessa fase aguçam a capacidade auditiva... –Diego para de ler lambendo os lábios e segurando firme o papel.
Um silêncio momentâneo enquanto os dois se olham. Roberta encontra uma dor no peito e se agarra a ela, uma dor de imaginar uma vida em formação, tão perfeita quanto uma estrela, quanto um pedaço de céu, quanto uma gota cristalina em mares tropicais... Perfeita, frágil e com provavelmente poucas horas restantes de existência.
-Tem olhos? -Sentada sobre a cama, ela fixa o olhar em Diego de uma forma suplicante.
–Tem... E aposto que lindos como os seus. -Ele se aproxima dela, acariciando seu rosto.
-Pernas... Braços...?
-E um coraçãozinho... –Eles sorriem juntos, um tanto sem jeito e emocionados. –Diz aqui nesse folheto que o coração bate muito mais rápido do que o nosso. Quase 150 vezes por minuto.
Roberta olha as imagens e não lê. Volta a visão para o namorado.
-Você quer ele, Diego?
-Você não? –Ele parece com receio da resposta dela.
-A gente nunca planejou isso. –Ela não o olha. –Foi um enorme acidente, algo que não era pra ser...
-Roberta...
-Aquela médica insinuou que a gente não tem condições de ter um filho e concordo com ela. Não temos emprego fixo, estamos sempre brigando, não terminamos a faculdade e nem temos casa pra morar.
-Tá certo, eu concordo também. –Diego reconhece. –Mas eu pensei que você... Que eu...
-Essa criança é nossa! -Ela fixa os olhos nos dele, determinada. – E eu quero ela, Diego!
-É sério? –Ele se espanta.
-Quero. Que se dane todo mundo! –Roberta parece certa do que diz. –Não me importa o que aconteceu ou o que vai acontecer. Essa criança é nossa, tá em mim e eu quero ela!
Diego a abraça contente com a resposta.
-Ah minha linda, tudo vai dar certo, você vai ver...
-A gente vai fazer dar certo.
Ao soltar-se pouco a pouco do abraço, Diego se lembra que Roberta ainda não sabe de toda a história e vendo suas esperanças se acenderem, crê que precisa diminuí-las para evitar desgostos.
-Eu preciso te contar uma coisa. –Ele procura as palavras. –Eu tenho medo de que você se apegue demais...
-Por que...? –Ela fica angustiada.
-A médica deu algumas horas para que se nada acontecesse a gente voltasse pra casa.
-E o que pode acontecer? –Ela pensa e em seguida diz baixo, como se o simples pronunciar fosse um perigo. –Um... Aborto?
-É... Um aborto espontâneo. –Ele completa e apanha forças para contar sobre os demais riscos, vendo-a se desintegrar em sua frente. -Ela não acredita que o bebê possa sobreviver mais que algumas horas por causa dos remédios que você tomou.
-Eu não sabia...
-Claro que não... –Diego segura o rosto dela. –Você não tinha como saber.
-Mas e se ele sobreviver mesmo assim?
-Bom... –Ele sente que precisa cortar mais uma raiz de esperança. –Mesmo que sobreviva pode nascer com problemas. Vários órgãos podem ser comprometidos.
Roberta se desfaz inteiramente, as esperanças indo lentamente para um ralo sujo e medonho. Diego fica esperando sua reação, mas ela permanece em silêncio olhando para as mãos sobre os joelhos, obrigando-se com todas as forças a conter o choro. De repente, sem se mover ela pergunta.
-O que dizia aquele folheto?
-Como?
-A audição. –Roberta ergue a cabeça para olhá-lo. –A audição no sétimo mês fica aguçada, não é? Não é o que diz?
-É, mas o que isso... –Diego tenta se situar, ainda está na outra conversa.
-Quando a gente ouve as pessoas nos chamando no palco a gente não corre até lá, pra elas?
-Sim, mas...
-Quando alguém nos diz que somos fortes não tentamos ser tão fortes quanto a pessoa acredita? –Roberta se agita. –Quando alguém nos ama, não queremos ficar com essa pessoa?
O namorado sorri e aperta a mão dela. –É sim.
-Então precisamos fazer ela saber Diego! Essa criança precisa saber que é bem vinda, que não está sozinha! –Roberta fica pálida, a voz ficando mais baixa ao final da frase.  –É uma rebelde e vai nos ouvir. Vai nos ouvir sim e...
-Ei... –Ele percebe. –O que foi? Roberta!
A brancura da neve se instala em sua pele e quando Diego percebe que há uma hemorragia surgindo no lençol, enlouquece porta a fora. Chama todos que encontra, enfermeiros, médicos e até pacientes. Fica totalmente sem rumo.
-Espere aqui fora! –É a ordem da enfermeira que entra primeiro.
Diego leva as mãos à cabeça e não faz outra coisa que não rodar de um canto a outro, sentando e levantando da cadeira a todo segundo. A médica entra e permanece com Roberta por alguns instantes, que para ele, foram longos demais.
-Rapaz. –A mulher ranzinza fecha a porta para falar com ele. –Não se preocupe, sua namorada está bem.
-E aquele sangue era...
-Não, não era o feto. Ele ainda está vivo, mas não vou dizer que por muito tempo.
-E eu já posso entrar? -Diego engole a vontade de ser grosseiro com a mulher. A primeira preocupação é ver Roberta.
-Pode. Ela está dormindo e deve permanecer assim por algumas horas, lhe demos um calmante. Será melhor o aborto ocorrer enquanto ela estiver dormindo.
Drª Cecília sai, deixando Diego com vontade de estrangulá-la. Não consegue pensar em como alguém pode agir com tanta frieza.
Ao entrar no quarto ele a vê encolhida, ainda pálida. A cabeça pendendo um pouco para a direita, os cabelos cobrindo a bochecha. Uma expressão distante da realidade. Ele se aproxima e beija sua testa, senta na beira da cama e respira lentamente, como se estivesse difícil cumprir tão instintiva tarefa.
Faria o que ela acreditava. Talvez Roberta soubesse melhor que qualquer um, já que a vida estava crescendo dentro dela. Ele leva as mãos até o lençol e o puxa para baixo, levanta a blusa de Roberta com cuidado até a altura do estômago e lhe dá um beijo abaixo do umbigo.
-Ei... –Diego sussurra de um jeito calmo e lento. -Você é novato por aqui, então tem que saber uma coisa. Roberta me deve um pedido, ela não pode deixar de cumprir. Mas agora você e ela... Vocês estão juntos agora... –Diego se enrola com o coração aos pulos. –Você também deve cumprir junto com ela o meu desejo. Roberta não pode sozinha, você precisa ajudar.
Diego olha para cima, o rosto dela ainda apagado, continua contraditoriamente tão radiante quanto o próprio sol que logo nasceria. E voltando os dedos em uma carícia para aquela pele clara, conclui ainda mais sussurrado.
-Eu quero que você viva. Ouviu? Quero que viva! Não quero mais nada além de Roberta e você. Esse é o meu terceiro e último desejo para toda a vida.

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